Os Primeiros Passos: O Kasato Maru (1908)

A relação entre Mie e São Paulo começou no marco zero da imigração japonesa: a viagem do navio Kasato Maru, que aportou em Santos no dia 18 de junho de 1908.

Das 781 pessoas a bordo na primeira leva oficial de imigrantes, a província de Mie destacou-se como a segunda maior fornecedora de famílias, enviando 55 imigrantes (ficando atrás apenas de Okinawa). Esses pioneiros eram predominantemente agricultores e jovens trabalhadores vindos de áreas rurais da província, motivados pelo desejo de encontrar novas oportunidades econômicas diante das transformações e dificuldades do Japão da Era Meiji.

A Chegada e o Desafio nos Cafezais

Ao desembarcarem, as famílias de Mie foram encaminhadas para as fazendas de café do interior paulista, como a tradicional Fazenda Dumont, na região de Ribeirão Preto, e fazendas na região de Sorocaba e Mogiana.

O contraste não poderia ser maior:

Adaptação Cultural e Climática:

Enfrentaram o calor tropical, o idioma desconhecido, a alimentação à base de feijão e farinha, e doenças como a malária.

O Trabalho Rígido:

A rotina de trabalho na colheita do café era dura, sob contratos severos que muitas vezes dificultavam o acúmulo de capital desejado para o retorno rápido ao Japão.

Apesar das adversidades, a resiliência dos imigrantes de Mie se sobressaiu. Com o término dos contratos nas fazendas, muitos decidiram não retornar ao Japão, mas sim adquirir pequenas propriedades de terra ou migrar para a capital.

Expansão, Agrupamento e Desenvolvimento

Nas décadas de 1920 e 1930, novas levas de imigrantes de Mie chegaram a São Paulo, estabelecendo-se em colônias agrícolas espalhadas pelo estado:

Noroeste e Alta Paulista:

Regiões como Promissão, Araçatuba e Marília receberam diversas famílias de Mie que ajudaram a desbravar a mata e introduzir novas culturas agrícolas, como o algodão, legumes e frutas.

Cinturão Verde e Capital:

Outro grupo fixou-se nas periferias da capital paulista (como Mogi das Cruzes, Suzano e Cotia), desempenhando um papel crucial no abastecimento hortifrúti do estado.

O Associativismo e a Associação Cultural Mie Kenjin (1950)

Após o período crítico da Segunda Guerra Mundial — que interrompeu o fluxo imigratório e impôs restrições à comunidade japonesa no Brasil —, os imigrantes de Mie sentiram a necessidade de reorganizar seus laços de solidariedade.

Em 1950, foi fundada formalmente a Associação Cultural Mie Kenjin do Brasil (Mie Kenjin-kai), sediada em São Paulo (no bairro do Liberdade/Vila Mariana). A associação tornou-se o ponto de encontro para:

Preservação da Memória:

Manter vivas as tradições, festivais (matsuri) e a culinária típica de Mie (como o Ise Udon).

Integração das Gerações:

Conectar os pioneiros (Issei) aos seus descendentes (Nisei, Sansei).

Ponte Diplomática e Cultural:

Promover o intercâmbio entre o Governo da Província de Mie e o Estado de São Paulo, incluindo bolsas de estudo para jovens nipo-brasileiros estudarem em Mie.

O Legado

Hoje, a história dos imigrantes de Mie se confunde com a própria história do Estado de São Paulo. Seus descendentes integraram-se plenamente à sociedade brasileira, destacando-se na agricultura, no comércio, na medicina, na engenharia e no meio acadêmico.

O espírito de perseverança dos 55 passageiros de Mie que desembarcaram do Kasato Maru em 1908 frutificou, deixando uma herança duradoura de trabalho, cultura e integração entre o Japão e o Brasil.